Escritura e Tradição
Sola Scriptura e Tradição Apostólica
A pergunta: A Bíblia deve ser a única regra infalível da fé cristã?
Fundamento bíblico
2 Timóteo 3,16-17 afirma com força que toda Escritura é inspirada por Deus e útil para ensinar, corrigir e educar. Católicos acolhem integralmente essa afirmação. O texto, porém, não formula explicitamente que somente a Escritura exerça autoridade na comunidade cristã.
Em 2 Tessalonicenses 2,15, Paulo manda conservar as tradições ensinadas “de viva voz ou por carta”. Em 2 Timóteo 2,2, a transmissão passa de Paulo a Timóteo e a pessoas fiéis capazes de ensinar outras. Esses textos mostram uma autoridade apostólica comunicada também oralmente.
Explicação católica
“Sola Scriptura” costuma designar a convicção de que a Bíblia é a única regra infalível de fé da Igreja. A doutrina católica não nega a inspiração, a verdade ou a autoridade normativa da Escritura. Ela sustenta que a Revelação foi confiada aos apóstolos, transmitida por escrito e pela pregação viva, e recebida pela Igreja antes mesmo de o cânon estar plenamente definido.
A Igreja não ensina que o Magistério esteja acima da Palavra de Deus. Dei Verbum 10 declara que ele a serve, ensinando somente o que foi transmitido. Escritura, Tradição Apostólica e Magistério não são três revelações concorrentes: a Escritura é inspirada; a Tradição transmite integralmente a fé apostólica; o Magistério possui a tarefa de interpretá-la autenticamente.
“Tradição” aqui não significa qualquer costume antigo. Tradições disciplinares podem mudar. A Tradição Apostólica diz respeito ao Evangelho confiado por Cristo aos apóstolos e transmitido à Igreja.
Os livros do Novo Testamento foram escritos, copiados, proclamados e reconhecidos dentro da vida das igrejas. Debates antigos sobre alguns livros mostram que identificar o cânon não ocorreu pela leitura de uma lista inspirada dentro da própria Bíblia. A recepção e o discernimento eclesial tiveram papel histórico indispensável.
Trento respondeu às controvérsias da Reforma; o Vaticano II apresentou de modo sintético a unidade do depósito da fé em Dei Verbum.
Objeção comum
Confessionalidade batista e reformada
A Escritura é a única regra infalível de fé para a Igreja.
Se a Bíblia é Palavra de Deus, por que seria necessário falar em Tradição e Magistério? Muitos cristãos temem que essas realidades acrescentem doutrinas humanas ou concedam à Igreja poder sobre a Palavra. A preocupação de submeter todo ensinamento à verdade revelada é legítima e também deve orientar os católicos.
Resposta à objeção
Confessionalidade batista e reformada
A posição católica afirma a inspiração e autoridade normativa da Escritura, mas não separa o texto da Tradição Apostólica que o transmitiu.
O protestantismo clássico não costuma negar toda tradição ou autoridade eclesial. Em geral, considera-as falíveis e subordinadas à Escritura como única norma infalível. A posição católica concorda que toda tradição humana deve ser julgada, mas sustenta que a própria fé apostólica inclui uma transmissão viva assistida pelo Espírito Santo.
A diferença, portanto, não é “Bíblia contra ausência de Bíblia”. É uma diferença sobre como Cristo quis que a Revelação fosse preservada, identificada e interpretada na Igreja.
Síntese final
- Dizer que protestantes rejeitam toda tradição.
- Dizer que católicos colocam costumes locais no mesmo nível da Escritura.
- Usar um versículo isolado como se eliminasse a necessidade de interpretação.
- Confundir autoridade magisterial com poder para inventar nova revelação.
A Igreja Católica ama e venera a Escritura como Palavra de Deus. Sua divergência com a Sola Scriptura está na suficiência formal da Bíblia isolada como única regra infalível. Para o catolicismo, a mesma fonte divina chega à Igreja pela Escritura e pela Tradição Apostólica, sob um Magistério que deve servir, e não dominar, o depósito recebido.
Fontes documentais
Bíblia
- 2 Tessalonicenses 2,15 Exorta os cristãos a guardar ensinamentos transmitidos de viva voz e por carta.Localização: 2 Tessalonicenses 2,15.
- 2 Timóteo 3,14-17 Afirma a inspiração e a utilidade da Escritura para formar o homem de Deus.Localização: 2 Timóteo 3,14-17.
- 1 Timóteo 3,15 Chama a Igreja de coluna e sustentáculo da verdade.Localização: 1 Timóteo 3,15.
Catecismo
- Catecismo da Igreja Católica, 74-100 Resume a relação entre Revelação, Tradição, Escritura e Magistério.Localização: Catecismo da Igreja Católica, 74-100.
Concílios
- Concílio de Trento, quarta sessão (1546) Trata da recepção dos livros sagrados e das tradições apostólicas.Localização: Concílio de Trento, quarta sessão (1546).
Magistério
- Dei Verbum, 7-10 Ensina que Escritura e Tradição formam um único depósito sagrado, servido pelo Magistério.Localização: Dei Verbum, 7-10.
Fontes confessionais
- Declaração Doutrinária da CBB, I — Escrituras Sagradas Apresenta a Bíblia como única regra infalível de fé e conduta no recorte batista adotado.Localização: Declaração Doutrinária da CBB, I — Escrituras Sagradas.
- Confissão de Fé de Westminster, capítulo I Formula suficiência, autoridade e interpretação da Escritura na tradição reformada adotada.Localização: Confissão de Fé de Westminster, capítulo I.
- Declaração de Fé das Assembleias de Deus, capítulo II Apresenta inspiração e autoridade bíblica no recorte assembleiano.Localização: Declaração de Fé das Assembleias de Deus, capítulo II.
Perguntas relacionadas
- O que a Igreja quer dizer com Tradição Apostólica?
- A Igreja coloca tradições humanas acima da Bíblia?
- Como foi reconhecido o cânon bíblico?